Chegando no Gilberto Salomão dei de cara com o que eu temia. Vários corpos pelo chão, alguns com alguém por cima ainda abocanhando e rasgando com a mão o resto dos tecidos.
Tinha muito, muito sangue mesmo na rampa do mercado. Ao passar pela passarela em frente ao mercado, pude ver vários desses monstros lá dentro, pude ver um dos mortos meio comidos abrindo os olhos esbranquiçados, com uma cara de fome e raiva. Aquilo não foi nada agradável mas estou conseguindo ver um modus operandi disso tudo. Quem é comido se transforma em um desses. Será a mordida? Não creio que os filmes estejam falando a verdade mas e se estiverem? O sangue infecta mesmo?
Ao olhar para frente vi um desses me encarando ainda mastigando alguma coisa. Babava muito e seu olhar de predador ficou fixado na minha cara. Ele deu um rosnado pro alto e outros que estavam no mercado olharam para ele e depois para mim.
Ali tive a certeza absoluta que eles se comunicavam e aquilo queria dizer "hora do rango".
Acelerei com tudo e atropelei esse também, que ficou pra trás, com a coluna torcida mas ainda urrava e tentava se arrastar com os braços em minha direção. Nessas horas um instinto de "mata aquilo carai" dominou meu corpo e dei a ré até aquela coisa. Passei por cima denovo e depois engatei a primeira e passei por cima denovo, denovo, denovo e denovo. Aquilo ainda me olhava e aquilo ainda queria me rasgar. Um momento sádico de minha pessoas dominou o volante e quis passar pela cabeça dele, só para tirar aquela cara de predador do morto. Finalmente ele parou. Seus dedos enrijecidos pararam de se mexer, seu corpo ficou totalmente inerte naquela bola de carne atropelada. É a cabeça... Mas a cabeça inteira ou uma pancada só basta? Não vou testar com os outros 20 que estava vindo em minha direção, engatei a primeira e fui embora.
Acabei parando na QI 19, lá tem um comércio pouco movimentado e um mercado menor, seria mais fácil de pegar alguma coisa pra comer e eu estava desesperado por um café, precisava mesmo de um café e um cigarro. Precisava muito tomar café fumando um cigarro mesmo, eu tremia de uma forma inexplicável, eu precisava relaxar, nem me importaria se eu já estivesse defecado ou me mijado nas calças, precisava da porra do café e do cigarro.
Cheguei no mercado, as portas estava fechadas com grades e tinha uns poucos desses monstros andando por perto.
Admito que dei uma risada histérica e insana quando comecei a atropelar todos eles, sentindo um prazer mórbido de sentir a vibração da cabeça deles sendo esmaga pelo carro popular que eu estava conduzindo, pensei que estava ficando louco...
Como não vi mais nenhum desses por perto, cheguei com o carro bem perto do portão do mercado e desci. Consegui ver umas 4 pessoas lá dentro, armados com facas e espetos de churrasco. Aqui não é os Estados Unidos, não temos pistolas em mercados, não é?
Eles me deixaram entrar e me falaram tudo que havia acontecido.
Parece que o primeiro caso foi aqui em Brasília mesmo, na parte sul. Não sabiam me dizer onde exatamente mas era em alguma quadra do SMHS. Se espalhou rápido, parece que desembarquei em Brasília do 3º dia. Só pude imaginar "mas que merda...".
Perguntei se alguém estava com sinal de celular, um estava, das 4 operadoras, apenas 1 funcionava e pra piorar a situação era pré-pago. Mas me disseram que não ia adiantar nada, os telefones fixos estavam mudos. Ao verificar meu celular, vi que uma rede WiFi estava ligada e com um sinal bom. As linhas de voz estavam mudas mas as linhas de dados ainda funcionavam, isso foi um alívio para mim, de alguma forma eu teria contato com alguém. Como aquele mercado não era muito grande, havia luz e muita comida e coisas para beber, falei que lá fora estava infestado e que precisamos de um plano de fuga. Disse aos funcionários que esses zumbis farejam pessoas e que em pouco tempo teremos vários deles na porta de entrada e na saída dos fundos. Disse que precisamos trancar bem.
Fiquei admirado em ver que as portas eram trancadas de forma bem simplória mas muito eficaz. Barras de ferro grossas, correntes e cadeados. Excelente, vamos passar uma noite aqui ou duas, vamos comer bastante e ver o que é mais fácil para carregar.
Isso me lembrou um pouco os tempos de escoteiro, não fiquei muito tempo, apenas o suficiente para pegar os macetes de acampamento e sobrevivência na selva.
Trancamos tudo, apagamos as luzes e deixamos apenas as lâmpadas dos congeladores para iluminar o ambiente, atenção é a última coisa que queremos agora. Temos toneladas de café e maços e mais maços de cigarro aqui.
Uma estante com mochilas é bem útil, já coloquei 2 pacotes de café e 2 maços de cigarros na mochila, alguns enlatados e já deixei a mochila pronta.
Pior do que fugir e lutar pela sua vida, é fugir lutando pela sua vida e lutando contra os vícios. Me acalmei bastante, pra minha sorte, no banheiro dos funcionários havia um chuveiro elétrico. Tomei um banho, troquei de roupa e joguei a roupa suja na fornalha da padaria, não quero nada chamando muita atenção e pelo que vi, suor chama muito atenção desses troços.
Comemos bastante, pensamos até na hipótese de ficarmos no mercado ate tudo ser resolvido, seria uma excelente idéia se o prédio não fosse tão fácil de ser cercado...
Navegando um pouco pela internet, que graças a Deus ainda está de pé, pude ver vários fóruns de sobreviventes, parece que na europa essa infestação está contida mas há rumores de que toda as américas foram tomadas. Os outros continentes fecharam seus portos e aeroportos, onde houver divisão de terra, haverá infestação, isso significa que será muito trabalhoso chegar até o continente europeu, ainda mais que estamos no miolo do país, a viagem até o litoral não será fácil e ninguém aqui tem a menor noção de como navegar, o que fazer ou até mesmo como dar partida em um barco.
Em uma dessas navegadas pela internet, conheci um sobrevivente aqui de Brasília também, não sei exatamente onde ele está, se chama Luciano ele tem feito atualizações em um blog contando o que tem acontecido com ele, o endereço é http://osmortosvivosestaoaqui.blogspot.com. Parece que é um trio, espero mesmo que estejam bem e não estejam com dificuldades.
Está escuro lá fora, os postes, alguns, se acenderam e deu para ver alguns desses monstros andando por aí, melhor não fazermos barulho algum e irmos dormir com escala de vigilância para que os outros possam descansar. Amanhã será um dia difícil.
"Nota Mental: A mocinha do caixa é uma gatinha"
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