A madrugada foi meio tensa. Escutar esses zumbis gemendo por todos os lados não fácil encarar. Pro meu alívio, esse gemidos eram meio de longe, das casas mais afastadas.Tenho a impressão que há outros sobreviventes por aqui nesse conjunto mas ninguém se manifestou, acredito que o medo esteja impedindo de fazerem qualquer barulho, muito natural isso.
Ate umas 3 da manhã escutei o velho tentando contato, o chiado do rádio e aquele som típico de rádio AM que parece um assobio contínuo com estática ao fundo ficou por horas na minha cabeça.
Escutei a velha chorando baixinho, pequenos soluços revelavam seu descontentamento. Escutei algumas piscinas tendo sua água espalhada, imaginei um zumbi idiota caindo dentro dela, isso me fez rir um pouco.
O que mais me chamou atenção pela sua total ausência foram os grilos. Não escutei nenhum. Nenhum inseto, pássaro, nada. Nenhum som de noite, apenas esses que descrevi.
Hora de um café... o sono está batendo e não quero baixar a guarda, mesmo estando sobre o telhado da garagem que dá de cara pra rua, não quero baixar a guarda por nada. Notei que o corpo do zumbi que matei hoje algumas horas atrás não está mais ali. A poça de sangue ficou mas o corpo sumiu... Será que não matei o morto bem matado? Tem que amassar a cabeça mesmo? Ou um tiro desse nenem aqui basta? Foi uma estacada pouco abaixo do olho, pelo que eu me lembre, das aulas de ciências, biologia e etc, acredito que só cutuquei o cérebro mas não detonei ele.
Melhor fazer um teste, vejo apenas um zumbi olhando para cima, o babão está impressionado com a luz do poste, ela falha e isso chamou a atenção dele. Mirei com calma, ele estava parado, apenas balançando de leve pros lados, mirei bem na testa.
PTOW!
-Malaaaandro!!! - falei com entusiasmo.
A cabeça abriu como um melão. A chicotada dessa arma no pulso foi forte mas me senti muito mais heróico com um canhão desses do que com um cabo de vassoura quebrado enfiado na cara de alguém. Caiu na hora, o som do tiro ecoou por um bom tempo. Estranhamente isso não chamou muita atenção deles, se tivesse mais por ai, sei que tem, eles teriam vindo, mas não, ficaram por ai mesmo. Bom saber disso.
Vejo o horizonte, as nuvens estão baixas e alaranjadas pelos incêndios pela cidade... que merda. Como isso foi acontecer?
Já que está tudo tranquilo peguei meu amigo celular e procurei o sinal WiFi novamente. Achei e dei uma navegada, sempre olhado pros lados. Vi em um fórum de sobreviventes norte-americanos que a infestação lá saiu do controle. Um rapaz de Dallas estava dizendo que todo o Texas foi tomado, a costa leste inteira também. Deu para ver pelo seu avatar do fórum que ele está on line, mas está ali faz 2 hora sem postar nada... Acho que sei o destino dele.
Dando mais uma busca e vi que no Canadá também está essa zona, México, Venezuela, Chile, Argentina... as américas foram realmente tomadas por zumbis.
Me dou conta que há uma luz de longe sobrevoando a cidade. Parece um helicóptero pelo modo de voar, já que ele para no ar não é mesmo? Ele faz pouco barulho, deve ser um militar então. Não tenho nada para sinalizar, ele está um pouco longe e não me veria nesse escuro e não veria a luz da tela do celular balançando no ar. Não vou ser burro em ficar gritando no telhado, se eu fizer isso eu vou ser ilhado por zumbis de novo.
Vamos ver o que temos de soluções viáveis para mim, já que estou no Brasil, qualquer carro seria útil, até essa Belina 82 branca estacionada aqui embaixo de mim.
Pela busca muitos estão indo pro litoral mesmo, os aviões estão sendo abatidos como forma de segurança, o Brasil foi sitiado e a ONU não quer nem saber, explodiu vários aviões lotados em pleno ar.
Pelo mar, essa é a solução. Vou evitar o litoral dos estados mais populosos, nordeste nem pensar, demoraria demais pra chegar e é muito populoso. São Paulo nem fodendo, 300 zumbis para cada vivo e Rio de Janeiro... bom, se não explodiu de vez deve estar sob controle dos traficantes, esse tem bastante arma e mesmo assim os idiotas querem lucrar nessas horas, dinheiro hoje em dia é um pedaço de papel que serve mais como lenha do que outra coisa. Me vejo com a única opção... Paraná. Santa Catarina é muito populoso em relação ao tamanho de seu litoral e não quero ver zumbi com bermuda de surfista.
A diferença é pouca de qualquer forma...
Tenho amigos em Curitiba, posso descer até lá, soube que mais ao sul a infestação está sob controle, ver se sobrou algum deles vivo e andar 2 horas de carro até o litoral. De lá nos viramos. Vou levar esse casal comigo, o velho pode ser muito útil e o café da velha é excelente, café em tempos que não podemos dormir é precioso demais.
Estou ficando com sono, já são 5 da manhã e vejo que a neblina está ficando mais densa, vou ter que beber mais café e ficar vigiando bem, ainda tenho que procurar por água em uma dessas casas, espero que em alguma delas tenha daqueles galões de 20 litros, será muito útil e vou dar a idéia de Curitiba pro velho, acho que ele vai topar.
Quando for de dia relato mais, o sobrevivente Luciano não relatou mais nada, ainda deve estar na casa que ele descreveu.
Me despeço aqui, tentando sobreviver.
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